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28 01 2009
Queridos leitores!
2008 terminou turbulento e iniciou mais ainda por aqui.
Mas em breve, novos posts aqui pra vocês matarem a saudade dos nossos colunistas fixos e curtirem o trabalho de novos colaboradores do ant zine!
Aguardem mais um pouquinho.
cami
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Uma Tarde Na Fruteira – Jupiter Maçã
4 11 2008Então pessoal que acompanha o ant. zine, abaixo segue uma resenha de um dos colaboradores do zine, o Bruno Ruffier, lá de Floripa.
“Antes de nada eu gostaria de explicar, segue agora um mosaico de imagens mil”: Não é por acaso que essa é a frase que abre o último lançamento do compositor gaúcho Jupiter Maçã (pseudônimo do ex Cascavelletes Flavio Basso). Ela sintetiza perfeitamente o que é o Uma Tarde Na Fruteira. Disco que faz um apanhado de todos os estilos musicais trabalhados por Basso em seus 3 álbuns anteriores. O Rock psicodélico do aclamadíssimo Sétima Efervescência (1996) acabou por dar lugar à uma brasilidade underground cada vez mais influenciada pelo tropicalismo. Isso somado a toneladas de experiências com texturas, moogs, musica eletrônica, fuzz e lounge podem nos dar uma idéia do que o álbum tem para oferecer: uma miscelânea consistente e agradável de cultura pop envolta por um passado e uma estética roqueira de fácil identificação.
- Marchinha Psicótica de Dr. Soup: a primeira faixa é uma bossa recheada de órgãos e apitos, na qual Jupiter tece uma teia de imagens surrealista. Circo, psicodelía, insinuações sexuais e personagens famosos povoam essa celebrativa marchinha de carnaval, que em sua letra profetiza muito sucesso em uma versão revisitada até o ano de 2020.
- Tema de Jupiter Maçã: dá continuidade uma canção cuja estrutura lembra bastante os primeiros sucessos dos Kinks: You Really Got Me e All Day and All of the Night. Mas Basso confere novo fôlego a essa formula adicionando a ela alguns acordes de jazz, bongôs e um sutil caráter latino. A letra faz menção a diferentes pontos da carreira do cantor e referencía diversas das suas composições já consagradas.
- Base Primitiva Revisitada: lembra muito o disco anterior, Hisscivilization. A marimba, o triangulo e os metais criam uma atmosfera tétrica em uma espécie de acid jazz do tempo das cavernas. É arrepiante perceber a maneira com que o vocal dobrado se distribui pelo fone no estéreo – em vibrato e frenéticamente. Os efeitos eletrônicos somados a percussão cadenciada acabam por criar para a base um conceito contraditório de futurismo primitivo.
- As Mesmas Coisas: inicia em silencio, mas lentamente o volume das flautas e demais instrumentos vão aparecendo em um “fade in”. A musica é acrescida de um contexto medieval não só pelo arranjo, mas por ser cantada em um pseudo-português de Portugal. As vozes novamente dobradas simulam o que poderia vir a ser um homem e uma mulher discorrendo sobre seus gostos e hábitos. Sempre encerrando com o estribilho: “mas meu amor, a gente junto não rola!”.
- Little Raver: é uma bela balada executada em dois violões, que lembra um pouco Simon & Garfunkel. Mas Jupiter como sempre, consegue subverter a influencia original à medida que uma tuba e percussões vão se fazendo presentes em uma espécie de fanfarra de rua. Culminando em uma bela harmonia vocal.
- Menina Super Brasil: depois da singela melancolia da faixa anterior, essa toma o ouvinte de surpresa por ser uma dançante canção pop. A letra trata literalmente do estereotipo da menina alternativa, meio hippie e meio burguesa, tão presente nas universidades federais desse país. – Ela já foi ativista e militante. Gosta dos Mutantes, do Tom Zé e tem uma super atitude!
- Plataforma 6: segue essa musica de inspiração folk e melodia arrastada, no melhor estilo dos Byrds. Com citaras, teclados e um solo inspirado de saxofone. É provavelmente a mais fraca do disco, ainda que isso a faça nem de longe uma musica ruim para quaisquer padrões menos elevados do que o do trabalho em questão.
- Sindrome de Pânico: totalmente Revolver (disco de 66 dos Beatles). A linha de baixo lembra um pouco And Your Bird Can Sing e as guitarras conversam e se costuram elétrica e estridentemente, ambas fazendo uso de uma técnica de tocar sempre deixando bordão Ré solto, enquanto soam as outras notas – O que ajuda a conferir a faixa um caráter místico e psicodélico.
- Casa de Mamãe: a seguinte é a musica mais tropicalista do disco. Nessa, Jupiter emula uma guitarra com efeito fuzz no estilo que consagrou Lanny Gordin - Possivelmente o mais genial instrumentista da tropicália. A exaltação desafinada na forma que o musico canta nessa faixa pode soar irritante para ouvidos menos pacientes, mas contribui para definir a personalidade da canção, que se alterna entre a serenidade de um momento de decadência conformada (que ele mesmo defende) e uma inquietação angustiada e raivosa sobre a própria situação.
- Beatle George: também é muito referenciável, obviamente ao trabalho de George Harrisson. Os arranjos foram compostos de forma que todos os elementos da gravação fizessem essa ponte: Guitarras slide com faixa dobrada, citaras e coros de “Aleluia e Hare Krishna!”. Mas a letra especificamente é sem nenhuma duvida, a mais pessoal e vulnerável que Flavio Basso já escreveu na vida. – “Aonde foi parar aquele menino que queria cantar como o Beatle George?” dá a dica.
- Mademoiselle Marchand: faz estilo “canção pop à lá francesa” e possui uma letra sensual e metafórica. Assim como a marchinha, é uma composição bastante imagética e está recheada de “segundos planos”. Que podem quase literalmente ser “vistos” de acordo com o entendimento do ouvinte.
- Carvão Sobre Tela: lembra um pouco Jorge Ben. Mas o interessante de se comentar é que mesmo quando se inspira em um dos compositores mais eufóricos e alegres da mpb, Jupiter mantém em sua brasilidade uma caricata melancolia intimista – extremamente oposta a obra de Ben Jor – da qual parece só se libertar tocando rock´n´roll.
- Viola de Aço: mistura Tom Zé com rock alemão – elemento bastante presente em seu disco anterior, Hisscivilization – e Stereolab com Bob Dylan. Essa faixa é basicamente uma colagem de experimentalismos. Em dado momento ele improvisa um Dylan com seus grunhidos irreconhecíveis, e essa parte parece não parece fazer muito sentido dentro da canção. Mas logo volta para o clima angustiante e recheado de texturas que abriu o tema.
- Um Sorvete Com Vocês: fecha o disco como a pretensa resposta para Baby de Caetano Veloso. Essa pretensão, porém não precisa ser vista com maus olhos. A composição faz jus ao que se propõe e o compositor se garante suficientemente para posicioná-la dessa maneira. A pregação leve e politicamente incorreta de “todo compositor contemporâneo precisa conhecer um átomo de urânio” não deixa de conferir um ultimo toque de humor e auto-ironia para o final do álbum, que termina mesmo com uma reprise instrumental da marchinha psicótica.
No caso especial de Júpiter Maçã, toda e qualquer atitude que pode ser interpretada como arrogância acaba subjugada pela excelência de um trabalho inspirado e bem fundamentado – Que mesmo não sendo extremamente popular entre a grande massa, acaba por lhe conferir status em meio aos grandes da nossa musica. Uma Tarde na Fruteira é um dos melhores discos brasileiros dessa década e Flavio Basso um dos mais geniais compositores ativos da nossa musica.
Espero sinceramente que até 2020 ele se torne um hit nacional – Pelo bem dos ouvidos da nação.
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